A Hora e a Vez do Cabelo Nascer.
Postado dia 30.05.2007
No dia 26 de maio eu vi três senhores de aproximadamente 60 anos de idade, fazendo rock com a mesma competência de quase 40 anos atrás. Não que eu tenha visto isso há 40 anos atrás. Apenas sentia esse gostinho nos discos. Coisa que nunca imaginei que veria ao vivo e tão de perto.
Teatro do Sesi lotado, aproximadamente 1.800 pessoas. E lá estava eu, sentado na poltrona número 14, esperando o espetáculo iniciar, com aquele tique nervoso irritante de ficar chacoalhando a perna. Enquanto esperava o tempo passar, assistia slides que passavam num telão com autógrafos e recados de alguns artistas que já passaram pela casa. E adivinhem o nome de quem que aparece num dos slides, o dela. A que já está com a geriatria paga, Rita Lee. Depois não digam que ela não apareceu no show.
Eram poucos minutos depois das 21 horas, as luzes se apagam, e a introdução de Dom Quixoteanuncia a entrada deles, Mutantes. Arnaldo Baptista, Sérgio Dias, Dinho Leme e a convidada a ocupar o vocal da banda, Zélia Duncan. Abraçados, numa pessoa só.
Foi nessa hora que caiu a ficha, eu estava vendo um show dos Mutantes. E foi também nos primeiros acordes de Dom Quixote que uma lágrima psicodélica escorre pelo canto do olho. Gente de todas as idades estavam lá presentes para ser deleitadas com o som dos Mutantes. Depois de três músicas, o pessoal não conseguiu se segurar na cadeira e foi para frente do palco. Senhores de cabelos brancos que, com certeza, voltaram à década de 60, lá no ínicio. E dividiam espaço com a gurizada que estava vendo os Mutantes pela primeira e talvez única vez.
Eu vi um Sérgio Dias feliz da vida, destruindo na guitarra e clamando por Lula e Hugo Chaves na El Justiciero. Vi um Dinho, tocando bateria tão bem como nos discos, parece que o tempo não passou para ele. Vi uma Zélia Duncan que sabe ocupar o espaço que lhe foi dado com muita competência e sintonia com os irmãos Baptista.Vi um Arnaldo que parecia um menino de 15 anos, de tão sem jeito que ficava, toda vez que o público chamava seu nome. E foi com Arnaldo que presenciei uma das melhores músicas da noite, Dia 36. Então eu percebi que, com Arnaldo, vai tudo bem.
Os sucessos se seguiram pelo resto da apresentação. Sempre com grande maestria e com a ajuda de uma grande banda, colocou o pessoal para pular ainda com Dois Mil e Um, Meio Desligado e o fim do show se aproxima com Minha Menina. Os Mutantes deixam o palco todos abraçados, abaixo de gritos e aplausos. Para minutos depois, voltarem com o bis. Bat Macumbae Panis et Circenses fecharam uma noite mágica, que ninguém irá apagar da memória.
Não há palavras nem textos para descrever a magia daquela noite. Os dias passaram e a imagem ainda vem na cabeça. Arnaldo atirando-se ao chão e brincando com o povo, Sérgio tocando guitarra ajoelhado e Dinho se emocionado com o povo gritando seu nome.
Era isso, no dia 26 de maio pisamos no jardim elétrico. Já podíamos voltar para casa e dizer tranqüilos que assistimos aos Mutantes. Ave Lúcifer!
Helder Silveira
...se eu posso pensar que Deus sou eu.
Postado dia 16.05.2007
Quase inverno e o texto de verão continua aí embaixo.
Coluna nova após o dia 26.
Chegou a hora e a vez do cabelo crescer.
Helder Silveira
Forno alegre.
Postado dia 14.01.2007
Enfim é verão. O forno aquece mais uma vez para tostar nossas peles protegidas por Sundown fator 15. Como de costume, todo mundo lhe abandona. Para ir aonde? Para praia, oras! Quem é o maluco que vai querer torrar nesse calor de 38 graus? Você oras! Isso mesmo, você vai querer estar em Porto Alegre. Vai querer estar, porque é a única coisa que lhe resta. Vai querer estar porque você TEM QUE estar.
O motivo de você estar aqui: trabalho, muito trabalho, porque, quem tem pouco trabalho, está na praia. Mas pensemos pelo lado positivo. No seu trabalho deve haver um ar condicionado. Dá para deixar a sala numa temperatura gélida de -25 graus. Ficaria tão frio que até ursos polares iriam querer desfrutar dessa delícia. Sim, ursos polares. Nada de pingüins. Pingüim que é pingüim gosta mesmo é de praia. Ou porque você acha que de vez em quando é encontrado algum pingüim perdido no nosso litoral?
Pingüins tem pouco trabalho.
Mas, definitivamente, praia não é para você. Seu negócio é a cidade. Aqui é o seu lugar. Uma cidade fantasma toda só para você. E o que se tem pra fazer numa cidade fantasma no verão? A mesma coisa que tinha para fazer no inverno, só que agora com menos gente. Às vezes isso pode ser muito melhor.
As salas de cinema todas para você, cerca de 120 minutos na mais profunda solidão cinematográfica. Os bares, jogados as moscas. Só você e o dj. Em um lugar em que normalmente se precisa degladiar para poder tomar uma ceva gelada agora basta dar alguns passos e ela estará lá, nas suas mãos.
Leia. Leia bastante. Você tem dois meses de calor para poder botar em dia sua leitura. Pilhas de livros lhe esperando para serem devorados. O calor da cidade não passará, mas pelo menos você terá alguma coisa para falar quando lhe perguntarem como foi seu verão. E ainda sairá com fama de intelectual. O verão tem seu lado bom.
Portanto , resista. Esse não vai ser nem o primeiro nem o último verão infernal que você passará. Ano que vem tem mais, e quem sabe, você terá umas férias merecidas e seguirá rumo ao litoral. Porque é só assim para parar de reclamar.
Helder Silveira
Quebrando o disquinho.
Postado dia 27.11.2006
Quanto tempo faz que você não compra um cd? Muitos dirão que faz uns bons meses que não põem as mãos num disquinho. E se eu perguntar, quanto tempo faz que você não baixa uma mp3? Trocentos dirão que não faz nem 5 minutos que baixou sua ultima mp3 de uma banda desconhecidíssima do norte de algum país frio. Esses podem ser os últimos suspiros da vida do compacto digital, que há mais ou menos 20 anos entrou na vida de muita gente.
Voltemos há 20 anos atrás. Quantos devem ter sido os lp’s jogados no lixo, quebrados e esquecidos no fundo do armário. Tudo isso porque chega nos lojas um disco muito menor que o LP, com uns 12 centímetros de diâmetro, de cor metálica, e o melhor, o que lê as músicas não é uma agulha, é um laser! Pronto, é o fim de uma era. Tudo aquilo que foi inventado até outrora é passado, ninguém mais sabe o que é um disco de vinil. Sem contar a qualidade de áudio de um cd, que é discutida até hoje, que muitos dizem ser superior ao do vinil. Ponto pro cd. Ou não.
Muitos foram os anos de reinado do laser. Grandes gravadoras cada vez lançando mais e mais artistas e cada vez mais e mais vendendo cds, e, gradativamente, aumentando o preço dos mesmos. Toda ação tem sua reação.
Final da década de 90, início dos anos 2000. O ano do Napster, o ano que as grandes gravadoras começaram a sentir medo, muito medo. Compartilhamento de arquivos agora era o que valia. Você podia ter no computador as músicas dos seus artistas preferidos, bastava ter muita paciência e algumas horas; e o melhor, tudo de graça. Ficávamos ali na apreensão, olhando os por centos aumentando até chegar a 100, pra ouvirmos uma única musica, uma única. Depois de downloadeada e escutada a música, era repetir o mesmo processo, escolher uma outra banda ou artista e começar um novo download.
Some então milhões de downloads e pessoas com gravadores de cd em seus próprios computadores. Temos pirataria. Isso estremeceu a indústria fonográfica, e estremece até hoje. Pirataria sempre existiu, havia piratas dos lp’s, em fitas cassetes, com qualidade bem inferior a um LP. Isso nunca interferiu nas vendas do vinil, pois era uma minoria fazendo piratas e comercializando. Resumindo, vinil não é impossível de piratear, mas suas cópias têm uma qualidade muito inferior. Ponto pro vinil.
Ainda temos saudosistas comprando Lp’s, e ainda temos pessoas que acreditam no cd. Mas temos muito mais que acreditam na música digital, na evolução da música, assim como foi a evolução do vinil para cd. Gravadoras terão que repensar o jeito de vender seus artistas, e hoje em dia os meios são muitos. Lp é legal. Cd é legal. Nunca vai deixar de existir quem usufrua destes dois tipos de mídias. Só espero que ninguém mais jogue uma coleção inteira de discos quando for criado mais um novo conceito de se escutar música.
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